Edição 3 Entre a crise global e a mudança dos programas: o que move hoje o estudante brasileiro que sai
O fluxo de estudantes para o exterior está mais relacionado à crise geopolítica atual ou à mudança do programa de intercâmbio brasileiro que o governo ajuda a promover?
Há perguntas que parecem simples, mas não são.
Esta é uma delas: o movimento de brasileiros que saem para estudar no exterior hoje está mais ligado à crise geopolítica atual ou à mudança dos programas brasileiros de internacionalização?
A resposta mais honesta é que não se trata de uma oposição direta. O fluxo atual parece estar menos relacionado, de forma isolada, à crise geopolítica e mais a fatores estruturais ligados à formação, à mobilidade e ao projeto de vida, somados a uma mudança importante no desenho da internacionalização brasileira. A crise internacional pressiona o cenário: encarece a experiência, amplia a incerteza e torna a decisão mais seletiva. Mas a mudança dos programas públicos brasileiros interfere de modo mais direto no perfil da mobilidade financiada.
O mundo, de fato, ficou mais tenso. A guerra no Oriente Médio reacendeu pressões sobre energia, inflação e crescimento global, e organismos multilaterais vêm alertando para efeitos em cadeia sobre custo de vida, previsibilidade econômica e capacidade de planejamento de países e famílias. Ainda assim, a mobilidade estudantil internacional não parou. A UNESCO aponta cerca de 6,9 milhões de estudantes estudando fora de seu país de origem, e a OCDE registrou mais de 1,8 milhão de novos estudantes internacionais de ensino superior em seus países membros em 2024, ainda que abaixo do ano anterior. O que isso sugere é claro: a crise não elimina o movimento, mas muda seu custo, seu risco e o cálculo necessário para sustentá-lo.
No caso brasileiro, o movimento continua visível, mas distribuído de forma desigual. Os Estados Unidos seguem como um destino individual muito forte: o Open Doors registrou 16.877 brasileiros no ensino superior norte-americano em 2023/24. Ao mesmo tempo, a Europa ganhou peso no imaginário e na prática, especialmente por meio de destinos como Portugal e Reino Unido. Em Portugal, os dados analisados pela EDULOG com base na DGEEC mostram que, em 2023/24, havia mais de 55 mil estudantes em mobilidade internacional de grau, e o Brasil aparecia como o principal país de origem, representando 28% desse grupo. Isso não autoriza concluir, com a mesma precisão estatística, que a Europa inteira já ultrapassou os EUA em todas as modalidades de estudo; mas autoriza dizer que o eixo europeu se tornou hoje muito mais relevante do que seria prudente supor, sobretudo quando Portugal entra no cálculo.
É justamente aí que a mudança dos programas brasileiros entra como peça importante da explicação. O antigo Ciência sem Fronteiras permanece nas páginas oficiais como programa histórico. O seu peso simbólico foi enorme: por alguns anos, ele ampliou o imaginário do estudo no exterior como horizonte possível para estudantes brasileiros, especialmente na graduação. Hoje, porém, esse modelo amplo e nacionalmente visível já não organiza a política pública da mesma forma. No lugar dele, a internacionalização oficial passou a ser estruturada por programas mais segmentados, mais institucionais e muito mais concentrados na pós-graduação, na pesquisa e na cooperação entre universidades.
Isso aparece com clareza nos programas atuais. O PDSE, da CAPES, segue ativo para 2026 e financia doutorado-sanduíche no exterior. Já o CAPES-PrInt opera pela lógica da internacionalização institucional. No CNPq, o eixo recente também se afasta da mobilidade massiva de graduação e se volta mais para atração, fixação e circulação estratégica de pesquisadores. Em outras palavras: a política pública brasileira não deixou de investir em internacionalização, mas mudou de natureza. Menos intercâmbio amplo de graduação; mais formação avançada, pesquisa e retenção de talentos.
Quando o projeto de estudar fora exige mais do que desejo
Essa mudança de cenário tem uma consequência prática que não deveria ser subestimada: quem pretende viver uma experiência acadêmica no exterior hoje precisa olhar para esse movimento com mais planejamento do que idealização.
Muitos estudantes passam um a dois anos fora do país. Esse não é um detalhe logístico. É tempo suficiente para que as condições acadêmicas, financeiras, emocionais e linguísticas deixem de ser pano de fundo e passem a organizar a experiência inteira. Em países como Portugal, por exemplo, a própria autorização de residência para estudantes do ensino superior pode chegar a três anos, renovável, e o ex-estudante ainda pode ter um período adicional para buscar trabalho ou abrir empresa. Isso mostra que o estudo, em certos contextos, já não é apenas estudo. Pode funcionar como corredor de transição para permanência.
Por isso, há alguns pontos que merecem atenção antes mesmo do embarque. Preparação acadêmica, para compreender as exigências do curso, o ritmo de leitura, a forma de avaliação e a cultura universitária do país de destino. Planejamento financeiro, para lidar com mensalidades, moradia, alimentação, transporte, seguro, taxas e oscilações cambiais. Ansiedade e medo do desconhecido, que costumam aparecer antes da partida e reaparecer nos primeiros meses, quando a vida cotidiana deixa de ser projeto e passa a ser experiência concreta. Gestão de expectativas e pressões, porque mudar de país não resolve automaticamente conflitos pessoais, dúvidas profissionais ou sentimentos antigos de insuficiência. E, por fim, barreiras linguísticas, que afetam não apenas o desempenho acadêmico, mas também a autonomia, a integração e a confiança nas pequenas decisões do dia a dia. Esses pontos não são acessórios. São parte da travessia.
Talvez essa seja a formulação mais precisa para este momento: a crise geopolítica pressiona o cenário; a mudança dos programas brasileiros reorganiza o caminho. O fluxo não desaparece por causa da guerra, mas muda de custo, de destino e de cálculo. Já a política pública brasileira mudou de natureza: menos intercâmbio massivo de graduação, mais internacionalização seletiva da pós-graduação e da pesquisa. Para quem sai, isso significa uma exigência maior de organização interna e externa antes mesmo do embarque.
O interesse de sair permanece, mas os caminhos ficaram mais seletivos, tanto no mundo quanto no Brasil.